quinta-feira, 2 de maio de 2013

O cerco às bicicletas em Barretos

Para o Diretor de Trânsito e Transporte de Barretos, André Luís de Freitas, abusos no trânsito cometidos por ciclistas são o motivo dos acidentes registrados diariamente. 

Mesmo sem campanhas de educação nem infraestrutura adequada, prefeitura de Barretos pune ciclistas que cometem infrações de trânsito

Desde o mês de março de 2013, a Prefeitura de Barretos, cidade paulista a 423 km da capital, passou a fiscalizar e punir rigorosamente ciclistas que cometem “infrações de trânsito”, seguindo uma lei municipal de 1995. O primeiro dia da operação, feito em parceria entra o órgão de trânsito local e a Polícia Militar, começou com 19 bicicletas apreendidas em pouco menos de quatro horas, apenas no centro da cidade.

Em matéria da Folha de SP, a população alega falta de conhecimento e orientação sobre as regras. “Eu só subi no canto da calçada da praça. Nem isso pode?”, disse um dos moradores, o servente Caique Henrique da Silva. ”Abordada por um fiscal de trânsito enquanto descansava sobre a bicicleta em uma praça, a diarista Vanderleia Lopes de Oliveira também ficou surpresa. ‘Ele me orientou a sair da praça empurrando a bicicleta, senão eu seria multada’, afirmou”.

O Diretor de Trânsito e Transporte de Barretos, André Luís de Freitas, explicou no site da Prefeitura de Barretos, que são apreendidas as bicicletas “daqueles que forem pegos em infrações de trânsito como circular na contramão, em calçadas, calçadões e praças, estacionar em locais não permitidos, ou ainda ultrapassar o sinal vermelho nos semáforos”. A taxa para liberação da bicicleta é de R$ 14, podendo aumentar conforme a gravidade da infração e a sua reincidência.

Apesar de polêmica, a medida possui (ou deveria possuir) um caráter educativo. “Nosso objetivo é conscientizar os ciclistas de que eles também precisam seguir as regras para que o trânsito se torne menos perigoso. A lei municipal é importante para reger a conduta do ciclista”, explica Freitas.

Prioridades invertidas

O que nem a prefeitura de Barretos nem seus moradores parecem ter notado é a inversão de valores que essas atitudes demonstram diante dos reais problemas que existem no trânsito. Será mesmo que o ciclista é o responsável direto – e único – pelos acidentes que acontecem nas ruas de Barretos? Esse número é representativo a ponto de fechar um cerco tão forte a quem pedala?

Em entrevista a rádio Estadão, Thiago Benicchio, diretor da Ciclocidade (Associação dos Ciclistas Urbanos de SP), disse acreditar que esta medida é absolutamente infeliz, pois “demonstra uma profunda incapacidade dos gestores públicos em lidar com o trânsito”. Ouça a entrevista completa.

O ciclista anda na calçada e na contramão por falta de conhecimento sobre regras? Ou por que invariavelmente as regras não o incluem de maneira segura e efetiva, não contemplando seu deslocamento e todas as especificidades do andar de bicicleta? ”Procura-se eliminar o problema, mas estão eliminando a solução, numa política que não consegue incluir o ciclista”, afirma Benicchio.

Os passos para qualquer cidade que queira entender e, posteriormente, regulamentar o uso da bicicleta como um veículo legítimo (antes de reprimi-lo), são:

1- Educação: Deixar claro para a sociedade (especialmente aos condutores de veículos maiores) que pedestres e ciclistas têm a preferência no trânsito. Isso é básico e assegura a vida de quem é mais frágil. Está no Código de Trânsito Brasileiro, acima de qualquer legislação municipal.

2- Construir infra-estrutura adequada: Depois de entender a bicicleta como um veículo que pode compartilhar as vias com os demais (ou em paralelo), pensa-se em construir ou adequar a cidade para contemplar quem utiliza a bicicleta, garantindo sua segurança e adotando medidas que estimulem que as pessoas procurem outras formas de locomoção. Seja reduzindo a velocidade das vias, criando ciclovias, ciclofaixas, bicicletários, sinalizando caminhos e opções de rotas.

3- Por último, punir quem desobedecer as regras. Mas não pode ser uma via de mão única: as punições rígidas, com apreensão do veículo e pagamento de multa, devem ser para todos, inclusive (e principalmente) os motoristas, afinal o erro cometido por um condutor de veículo motorizado é potencialmente muito mais fatal do que o erro cometido por quem pedala de maneira “inadequada”.

“A punição é o último recurso. E fazer o último ser o primeiro me parece bastante equivocado”, declara Thiago Benicchio. ”Nosso desafio aqui em São Paulo é muito maior. Dá uma tristeza ver uma cidade menor, mais simples, muito mais fácil de resolver a questão da bicicleta, não resolvendo. Espero que a cidade de Barretos reveja essa situação e inclua o ciclista”.

Via - Vá de Bike

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